Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Sopa de Beldroegas

O que posso dizer sobre o tema “Na minha Terra, come-se bem”? Evocar um restaurante e aquele prato inesquecível? Confesso que raramente vou a restaurantes e não guardo nenhum momento daqueles que ficam registados para sempre na memória gustativa.
Seria talvez presunção da minha parte dizer que na minha casa “come-se bem”. Talvez porque, de vez em quando, tenho algumas reclamações, sobretudo quando faço alguns dos pratos tradicionais que não correspondem aos gostos dos mais novos.
Desde pequena fui iniciada na tarefa de cozinhar porque as mães não descuravam essa prenda que as filhas deviam levar para a sua missão de donas de casa. Eram receitas simples e tradicionais de uma casa modesta da vila do Crato, Alto Alentejo. Nesse tempo a variedade de produtos não era grande e o abastecimento de verdes e frutas fazia-se no mercado, duas vezes por semana. A carne resumia-se ao porco e borrego; a de vaca só quando alguém ia às cidades grandes. Criavam-se aves de capoeira no quintal da casa, reservadas para alguns domingos e outros dias de festa.
Alguns produtos comuns na cozinha alentejana desapareceram do mercado porque deixou de existir a coroa de hortas que rodeava as povoações. Entre elas conta-se a beldroega (Portulaca oleracea L.), planta espontânea muito comum nas hortas e que é actualmente considera uma infestante das culturas. No entanto, tenho a sorte de um pé de beldroega ter vindo parar a um dos vasos das minhas plantas e, assim, todos os anos por altura do Verão, tenho beldroegas para matar as saudades de sopa de batata com as ditas.
Nos livros de receitas alentejanas é frequente encontrar a sopa de beldroegas. No entanto, a minha sopa de beldroegas é mais simples do que a dos livros. Então, faz-se assim: refoga-se cebola e dentes de alho picados em azeite; em seguida juntam-se as batatas cortadas em cubinhos, os raminhos e folhas das beldroegas e deixa-se refogar um pouco; junta-se água e tempera-se com sal, colorau e folha de louro. Quando as batatas estão cozidas, abrem-se ovos que se deixam escalfar.  Garanto que é muito bom.
 
 
Texto incluído na blogagem colectiva "Na minha terra come-se bem!".
 

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publicado por Júlia às 08:08
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9 comentários:
De mariabesuga a 16 de Outubro de 2009 às 22:43
Sopa de beldroegas na minha terra faz-se com tudo em cru em camadas dentro da panela. Fio de azeite no fundo e batata e as beldroegas e cabeças de alho inteiras (tantas quantas as pessoas que gostarem de as comer assim) com a casca (só se tiram as peles de fora para irem limpas para a panela). As beldroegas arranjam-se tirando às que já têm o olhinho do meio que é o que faz a sopa amargar. Tapa-se de água e mais um pouco (conforme se é para comer assim ou com sopas de pão). Quando está quase cozinhado deita-se os ovos abertos que escalfam no caldo. Serve-se de preferência deitando a sopa numa tigela por cima de sopas de pão fininhas e só depois se serve para os pratos.

Esta é a forma como se faz na minha terra. Cá em casa faço assim ou algumas vezes mais rica porque acompanhada com queijo de cabra o que liga maravilhosamente. Serve-se a sopa no prato com o ovo no meio e de lado uma fatia do queijo.

É divinal.

Cada vez gosto mais de vir aqui.

Um abraço para todos
Um beijo à Júlia Galego.

(este é o comentário que deixei lá na "Aldeia" mas como resolvi vir aqui espreitar e achei que calhava aqui também e melhor ainda... trouxe-o para cá também)
De Júlia a 17 de Outubro de 2009 às 14:57
Agradeço a visita e o comentário. As variações do mesmo prato são comuns no Alentejo. No meu caso, também faço alterações que às vezes melhoram o resultado. No caso da sopa de beldroegas não vario porque acho que ela assim é muito boa. Claro que, sempre que tenho pão duro, ponho fatias no fundo do prato.
Bjs.
De Rafael Carvalho a 16 de Outubro de 2009 às 22:54
Beldroegas... Desconhecia a existência de tal planta!
É bom que estas plantas comestíveis espontâneas não desapareçam da nossa memória colectiva. Quem sabe se não voltaremos a depender delas.
Cumprimentos.
De Júlia a 17 de Outubro de 2009 às 15:05
Rafael, sabe que com as beldroegas deixei de achar estranho que noutras regiões se comam aquilo que vulgarmente designamos por ervas. Aconteceu que, em tempos, nos arredores de Loures onde eu vivia, apareceu um hortelão e vendedor ambulante, que vendia beldroegas. Para mim foi uma festa, mas não faz ideia a cara de estranheza das pessoas que me viam comprar aquela "erva".
Actualmente são combatidas como infestantes. Até descobri um site de fitofármacos que tem um específico para esta planta.
Além de muito boas nesta sopa, podem ser utilizadas noutro tipo de sopa de legumes e até ser comidas cruas em salada.
Cumprimentos
De A-lupa-de-alguem a 16 de Outubro de 2009 às 23:02
Olá. Tem graça que na terra onde nasci, beldroegas (aliás até pensava que se dizia baldroegas ) é uma espécie de erva que nascia entre as culturas e que era preciso tirá-la para não atrapalhar o crescimento das culturas ( nabos, couves etc. )! Mas se é boa para sopa, se voltar a ver esta"planta" quem sabe não experimento esta sopa :)
De Júlia a 17 de Outubro de 2009 às 15:09
Olá,
Claro que, nas culturas, as beldroegas (também se usa baldroegas) são prejudiciais porque vão competir pela água e nutrientes com as couves e os nabos.
Mas, ao arrancá-las, podem ser utilizadas nesta e noutras sopas e até em salada.
De Rosa Guerreiro Dias a 19 de Outubro de 2009 às 18:15
Beldroegas, Baldroegas , Baldoregas.
São nomes que por todo o país se chamam a esta erva comestível. Na minha casa , faziam-se as belas sopas de pão com ovo escalfado, e também na sopa de grão com uma folhinha de hortelã, não vos digo nada, era delicioso e de sustento como dizia a minha querida mãe. Confesso que hoje não faço por medo, pois vejo beldroegas crescerem por todo o lado, regadas pelo chichi dos cães, e borrifadas pelas cuspidelas para o chão. Vivo em Lisboa e debaixo das minhas janelas crescem bonitas viçosas; mas! Sei que se vendem nos mercados, mas ao vê-las lembro as das ruas, e quedo-me de as comprar. Comemos tanta coisa que se pensassemos bem, jamais comeriamos; Por isso lá está o ditado, < olho que não vê > ?
Mas gostei da ideia quem sabe se não teremos que voltar ao antigamente, será bom que nos mentalizemos.
Abraço da amiga Rosa
De daplanicie a 22 de Outubro de 2009 às 14:55
Ai que saudade que me deu da sopinha de beldroegas com ovo que a minha avó fazia!!! Quem dera poder comê-la de novo!!
Beijinho
De Júlia a 24 de Outubro de 2009 às 19:27
Amiga, mas em Beja não aparecem beldroegas?
Claro que as sopas das avós têm sempre outro gosto...
Beijinho

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